A Emergência Que Chocou o UNICEF e o Mundo
A República Democrática do Congo (RDC) volta a ocupar as manchetes internacionais, e desta vez por um motivo profundamente alarmante: o país está a enfrentar aquele que o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) classificou como o mais grave surto de cólera registado no país neste século.
O alerta, lançado de forma categórica pela agência, retrata uma crise sanitária que ultrapassa números — ela revela desigualdades históricas, falhas sistémicas e impactos devastadores especialmente nas crianças, que compõem a parcela mais vulnerável da população.
Segundo os últimos dados divulgados, mais de 64 mil casos de cólera já foram documentados desde o início do ano. 1.888 pessoas perderam a vida, entre elas 348 crianças, uma estatística que ilustra não apenas a força letal do surto, mas a profundidade da negligência estrutural que acompanha a crise.
O cenário epidemiológico atual assinala a cólera como uma ameaça que não se limita a determinadas zonas. O surto já se espalhou por 17 das 26 províncias congolesas, tornando-se um dos maiores desafios de saúde pública enfrentados pelo país nas últimas décadas.

CRIANÇAS EM PRIMEIRO LUGAR ENTRE AS VÍTIMAS: EDUCAÇÃO E SOBREVIVÊNCIA EM RISCO
O Peso Desproporcional da Crise Sobre a Infância Congolesa
Um dos aspectos mais perturbadores deste surto é a forma como ele atinge as crianças. O UNICEF destaca que quase um quarto de todos os casos — 23,4% — envolve menores de idade. Esta proporção revela como a vulnerabilidade infantil se agrava quando os sistemas de água, higiene e saneamento falham.
Em meio à rápida proliferação da doença, escolas têm sido forçadas a suspender atividades, impedindo milhares de crianças de frequentarem aulas. No contexto de um país já fragilizado por décadas de conflitos, interrupções educacionais têm um impacto que ultrapassa o presente: afetam o futuro de toda uma geração.
Um Episódio Que Chocou O País
Entre os casos que mais sensibilizaram o país está o de um orfanato em Kinshasa, onde 16 das 62 crianças acolhidas morreram em poucos dias após o início da contaminação.
A tragédia expôs de forma crua a precariedade de estruturas comunitárias e a falta de mecanismos eficazes de resposta rápida, sobretudo em regiões onde a população nunca havia sido exposta a surtos severos da doença.
POR QUE O SURTO É TÃO GRAVE? OS FATORES QUE AMPLIFICAM A CRISE
A escalada da cólera na RDC não é um fenómeno isolado. Ela está profundamente ligada a questões estruturais e circunstanciais que dificultam qualquer tentativa de contenção imediata. A seguir, apresentamos os principais elementos que explicam a dimensão da crise.
1. Água Potável: Uma Raridade para Mais da Metade da População
A RDC enfrenta um paradoxo conhecido internacionalmente: é um dos países mais ricos em recursos hídricos do continente, mas apresenta um dos piores acessos a água tratada e potável em África.
Apenas 43% da população tem acesso a serviços básicos de água, e a situação no saneamento é ainda mais crítica: apenas 15% contam com saneamento seguro e adequado.
Essa carência cria o ambiente perfeito para a propagação da cólera, uma doença transmitida sobretudo pelo consumo de água contaminada e pela falta de condições higiénicas adequadas.
2. Conflitos Armados: Deslocações, Instabilidade e Exposição à Doença
Por décadas, o leste da RDC tem sido palco de confrontos entre exércitos, grupos rebeldes e forças de defesa locais.
Esses conflitos geram êxodos massivos, com milhares de famílias vivendo em acampamentos improvisados, sem abastecimento de água, sem saneamento e com estruturas precárias.

Essa combinação resulta em:
Maior risco de contaminação,
Propagação rápida de doenças,
Colapso de infraestrutura ambulatória.
3. Urbanização Acelerada e Sem Planejamento
Cidades como Kinshasa, Goma e Bukavu continuam a crescer a um ritmo muito superior à sua capacidade de fornecer serviços urbanos básicos.
O resultado é o surgimento de bairros inteiros sem redes de água e saneamento, facilitando a circulação da bactéria Vibrio cholerae, responsável pelo surto.
4. Mudanças Climáticas: Chuvas Extremas e Inundações Frequentes
O aumento da intensidade das chuvas, aliado a inundações que contaminam nascentes e pontos de abastecimento, amplia significativamente o risco de transmissão.
Regiões antes consideradas seguras tornam-se rapidamente pontos de disseminação.
5. Falta de Conscientização e Acesso Tardio a Tratamento
Nas áreas urbanas onde a cólera nunca foi uma ameaça séria, como Kinshasa, muitos moradores desconhecem os sintomas, não procuram ajuda rapidamente e acabam transmitindo a doença dentro dos seus próprios lares.
Este fator explica por que certas regiões apresentam taxas de mortalidade anormalmente elevadas.
UM PAÍS À PROCURA DE RESPOSTAS: A NECESSIDADE DE FINANCIAMENTO URGENTE
O UNICEF reforça que, para enfrentar o surto de maneira eficiente nos próximos anos, são necessários investimentos imediatos em sistemas de água e saneamento, campanhas de conscientização e reforço dos mecanismos de resposta rápida.
Apelo Internacional: 5,5 Milhões de Euros para 2026
A previsão da agência da ONU é clara: serão necessários cerca de 5,5 milhões de euros para financiar respostas rápidas e ações de prevenção em 2026.
Este valor é considerado o mínimo essencial para evitar que o surto continue a expandir-se e resulte em perdas ainda maiores.
O financiamento será destinado a:
- Intervenções rápidas em comunidades afetadas,
- Distribuição de kits de higiene,
- Instalação de sistemas de purificação de água,
- Vacinação oral em regiões de maior risco,
- Formação de equipas locais de resposta imediata,
- Monitoramento epidemiológico contínuo.
LISTA DE FATORES QUE AMPLIFICAM O SURTO NA RDC
1. Acesso deficiente a água potável (43%).
2. Saneamento básico quase inexistente (15%).
3. Conflitos armados permanentes no leste.
4. Movimentos massivos de deslocados internos.
5. Urbanização desordenada e sem infraestrutura.
6. Fenómenos climáticos extremos.
7. Barreiras culturais e falta de conscientização.
8. Centros de saúde sobrecarregados.
9. Resposta tardia à procura de atendimento.
10. Falta de financiamento internacional consistente.
IMPACTO SOCIAL E HUMANO: UMA CRISE QUE AFETA TODA A POPULAÇÃO
O Peso nas Comunidades e no Sistema de Saúde
A cólera, apesar de ser uma doença evitável e tratável com medidas simples como reposição de sais e hidratação rápida, transforma-se numa ameaça mortal quando as estruturas falham.
Na RDC, o surto coloca pressão sobre hospitais que já enfrentam escassez de medicamentos, profissionais e equipamentos.
As maternidades, por exemplo, estão entre as mais atingidas, já que mulheres grávidas contaminadas apresentam maior risco de complicações.
Educação Sob Ataque
O impacto sobre o setor educativo não deve ser subestimado.
A suspensão de aulas para evitar contaminação é apenas uma parte do problema. A perda de professores, cuidadores e apoiadores comunitários agrava ainda mais a insegurança escolar.