Introdução
Nos últimos anos, a internet transformou profundamente a forma como as relações humanas, o trabalho e a sexualidade são percebidos e consumidos. Plataformas digitais, redes sociais e sites de conteúdo adulto criaram um novo ecossistema onde a exposição do corpo passou a ser apresentada não apenas como entretenimento, mas como oportunidade de negócio, empoderamento financeiro e até símbolo de sucesso pessoal.
Termos como “vendedora de pack”, “sugar baby”, “presença VIP” e “criadora de conteúdo no OnlyFans” tornaram-se populares, especialmente entre jovens. Muitas vezes, essas práticas são divulgadas com uma estética de luxo, liberdade e independência. No entanto, por trás dessa narrativa aparentemente glamourosa, existe uma realidade complexa, marcada por riscos sociais, emocionais, psicológicos e legais que raramente ganham o mesmo destaque.
Este artigo analisa como ocorre a romantização da prostituição na internet, os mecanismos digitais que sustentam essa narrativa e os impactos silenciosos dessa tendência na sociedade contemporânea.
O que significa romantizar a prostituição no ambiente digital
A romantização acontece quando uma prática social complexa é apresentada de forma simplificada, idealizada e descontextualizada, ignorando seus efeitos negativos. No ambiente digital, isso ocorre quando a prostituição e atividades correlatas são retratadas apenas como:
- Caminhos rápidos para o enriquecimento
- Símbolos de empoderamento feminino ou juvenil
- Escolhas livres sem consequências
- Estilo de vida luxuoso e aspiracional

“A internet não mente, ela seleciona. O problema é que o que fica de fora também comunica”, apontam especialistas em comunicação digital.
Redes sociais e plataformas adultas: o palco do glamour

Aplicativos como Instagram, TikTok, X (antigo Twitter) e plataformas de conteúdo adulto desempenham um papel central nesse processo. Por meio de algoritmos, os conteúdos mais chamativos e aspiracionais ganham maior visibilidade, enquanto relatos de sofrimento raramente alcançam o mesmo alcance.
Principais estratégias de romantização digital
Uso de linguagem motivacional (“dinheiro fácil”, “vida dos sonhos”)
Estética de luxo e sensualidade altamente produzida
Normalização do consumo do corpo como produto
Silenciamento de experiências negativas
O resultado é uma narrativa unilateral, que transforma uma atividade complexa em um produto de marketing pessoal.
A realidade invisível por trás da tela
Enquanto a internet exibe sucesso, a realidade de muitas pessoas na prostituição é marcada por desafios profundos. Diversos estudos sociais e relatos independentes apontam que a entrada nesse mercado, em muitos casos, não ocorre por escolha plena, mas por falta de alternativas econômicas.
Aspectos frequentemente omitidos
Violência física e psicológica
Exposição a doenças sexualmente transmissíveis
Dependência financeira de intermediários
Pressão emocional constante
Dificuldade de reinserção no mercado formal de trabalho
Além disso, o estigma social persiste. Mesmo em contextos onde a prostituição é legalizada ou tolerada, o preconceito acompanha essas pessoas, afetando relações familiares, acesso a serviços e saúde mental.
Empoderamento ou discurso seletivo?
Um dos argumentos mais utilizados na romantização da prostituição é o do empoderamento. A ideia de que vender o próprio corpo seria um ato de controle e liberdade individual ganhou força no discurso digital contemporâneo.
No entanto, especialistas alertam que empoderamento não pode ser analisado fora do contexto social e econômico. Escolhas feitas sob pressão da pobreza, desemprego ou desigualdade estrutural não podem ser comparadas a decisões tomadas em condições de igualdade.

“Não se trata de julgar quem está na prostituição, mas de questionar o sistema que transforma vulnerabilidade em oportunidade de lucro”, defendem ativistas sociais.
O impacto sobre jovens e adolescentes

Um dos efeitos mais preocupantes da romantização online é a influência sobre jovens. Ao consumir conteúdos que associam prostituição a sucesso rápido, muitos adolescentes passam a enxergar essa prática como uma alternativa profissional comum.
Riscos dessa influência
Naturalização da objetificação do corpo
Pressão para monetizar a própria imagem
Falta de compreensão sobre limites e consentimento
Exposição precoce a ambientes de exploração
A ausência de educação digital crítica agrava esse cenário, tornando jovens mais vulneráveis a promessas irreais.
A economia da atenção e o lucro invisível

É importante lembrar que, na internet, o verdadeiro produto muitas vezes não é o conteúdo, mas a atenção. Plataformas lucram com visualizações, cliques e assinaturas, enquanto os riscos recaem sobre quem se expõe.
Empresas de tecnologia, intermediários e até consumidores raramente são responsabilizados pelos impactos sociais dessa dinâmica. A romantização, nesse sentido, funciona como uma ferramenta de marketing altamente eficaz.
Entre legalidade, moral e direitos humanos
O debate sobre prostituição envolve múltiplas perspectivas: legais, morais, feministas e de direitos humanos. Em alguns países, a atividade é regulamentada; em outros, criminalizada ou parcialmente tolerada.
Independentemente do modelo adotado, organizações internacionais concordam em um ponto: a proteção da dignidade humana deve estar no centro da discussão. Isso inclui acesso à saúde, segurança, alternativas econômicas e informação honesta.