Falta de medicamentos, greves iminentes e denúncias graves expõem fragilidade do setor da saúde
Maputo, Moçambique — O Sistema Nacional de Saúde (SNS) moçambicano enfrenta uma das maiores crises das últimas décadas. Acusações de falta de meios básicos, condições degradantes nos hospitais e atraso no cumprimento de direitos laborais dos profissionais de saúde voltam a colocar o Governo sob forte pressão pública. No centro do debate está o Presidente da República, Daniel Chapo, apontado por organizações do setor como responsável direto por uma gestão considerada ineficaz e perigosa para a vida dos cidadãos.
As denúncias mais recentes partem da Associação dos Profissionais de Saúde Unidos de Moçambique (APSUM), cujo presidente, Anselmo Muchave, não poupou palavras ao classificar a situação como um verdadeiro colapso do sistema. Para Muchave, o Executivo já ultrapassou o limite da tolerância e deve assumir publicamente a falência funcional do SNS.
“O sistema está a matar pacientes”, denunciam profissionais
Segundo Anselmo Muchave, a crise deixou de ser apenas administrativa ou financeira e passou a ser humanitária. Em declarações contundentes, o dirigente associativo afirma que a escassez de recursos nos hospitais está a resultar em mortes evitáveis.
“Falta praticamente tudo. Desde medicamentos essenciais até anestésicos, soro fisiológico e até alimentação para os doentes internados”, afirma.
Relatos de profissionais de saúde espalhados por várias províncias confirmam o cenário descrito: pacientes à espera de cirurgias adiadas por falta de anestesia, enfermeiros obrigados a improvisar tratamentos e familiares a comprar medicamentos básicos fora das unidades hospitalares.
Hospitais sem condições mínimas de funcionamento

A situação das unidades sanitárias públicas é descrita como alarmante. Em muitos hospitais distritais e provinciais, faltam insumos considerados básicos para qualquer sistema de saúde funcional.
Entre os principais problemas apontados estão:
- Escassez crónica de medicamentos essenciais
- Falta de material cirúrgico e anestésicos
- Ausência de soro fisiológico em unidades de emergência
- Alimentação insuficiente ou inexistente para doentes internados
- Infraestruturas degradadas e equipamentos obsoletos
Profissionais relatam que, mesmo com formação adequada, a falta de meios transforma o atendimento médico num exercício de sobrevivência institucional.
Profissionais no limite físico e psicológico
Apesar das condições adversas, médicos, enfermeiros e técnicos de saúde continuam a trabalhar. No entanto, segundo a APSUM, o esforço chegou ao limite.

“Temos feito o máximo possível, mas já não conseguimos mais. Estamos exaustos física e emocionalmente”, alerta Muchave.
O desgaste psicológico, aliado à pressão de lidar diariamente com mortes que poderiam ser evitadas, tem levado muitos profissionais a abandonar o setor público ou a considerar a emigração.
Acusações diretas ao Governo de Daniel Chapo
A liderança da APSUM acusa diretamente o Executivo liderado por Daniel Chapo de negligência grave. Para a associação, o Governo tem conhecimento da situação, mas continua a adotar uma postura de indiferença.

“O Governo está a brincar com a saúde dos moçambicanos”, acusa Muchave.
A crítica vai além da falta de recursos e atinge a gestão política do setor, apontando ausência de prioridades claras, má alocação orçamental e falta de diálogo efetivo com os profissionais.
13.º salário e promessas não cumpridas reacendem tensão
Além das más condições de trabalho, os profissionais de saúde reivindicam direitos laborais básicos. Um dos principais pontos de tensão é o não pagamento do 13.º salário, um direito previsto mas sistematicamente adiado.
Outro fator agravante é o caderno reivindicativo entregue ao Governo há cerca de três anos, que, segundo a APSUM, permanece sem resposta concreta.
Entre as exigências estão:
- Pagamento integral do 13.º salário
- Melhoria das condições de trabalho
- Garantia de fornecimento regular de medicamentos
- Revisão salarial e valorização da carreira
- Investimento em infraestruturas hospitalares
Nova greve no horizonte

Diante do silêncio governamental, a APSUM admite a possibilidade de uma nova greve no setor da saúde. Embora reconheça o impacto que uma paralisação teria sobre a população, a associação afirma que o Governo deixou poucas alternativas.

“Não queremos prejudicar os pacientes, mas também não podemos continuar a trabalhar sem condições mínimas”, explica o presidente da associação.
Greves anteriores já haviam exposto a fragilidade do sistema, com hospitais a funcionarem apenas com serviços mínimos, agravando o sofrimento dos utentes.
População paga o preço da crise
Enquanto Governo e profissionais trocam acusações, quem sofre diretamente é a população. Para milhares de moçambicanos, o acesso à saúde pública tornou-se sinónimo de incerteza, filas intermináveis e despesas inesperadas.
Em zonas rurais, a situação é ainda mais crítica. Muitos distritos contam com apenas um hospital ou centro de saúde, frequentemente sem medicamentos ou pessoal suficiente.
Especialistas alertam para riscos estruturais
Analistas em políticas públicas de saúde alertam que a crise atual pode ter efeitos de longo prazo. A perda de profissionais qualificados, aliada à desconfiança da população no sistema público, pode comprometer décadas de avanços no setor.
Além disso, a fragilidade do SNS aumenta a vulnerabilidade do país diante de surtos epidemiológicos, como cólera, malária e doenças respiratórias.
Silêncio oficial e falta de respostas claras

Até ao momento, não houve um pronunciamento oficial detalhado do Governo respondendo às acusações da APSUM. A ausência de esclarecimentos públicos reforça a percepção de distanciamento entre o Executivo e a realidade vivida nos hospitais.
Para muitos observadores, a falta de transparência e de um plano claro de recuperação do setor agrava ainda mais a crise de confiança.